quinta-feira, 26 de março de 2009

"Leve e Momentânea" como, Paulo?


Leia e encare o sofrimento de Paulo.

... "Eu ainda mais: em trabalhos, muito mais; muito mais em prisões; em açoites, sem medida; em perigos de morte, muitas vezes. Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena de açoites menos um; fui três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem do mar; em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez. Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas... Em Damasco, o governador preposto do rei Aretas montou guarda na cidade dos damascenos, para me prender; mas, num grande cesto, me desceram por uma janela da muralha abaixo, e assim me livrei das suas mãos" (2Co 10.13-33).

Mas antes de dizer isso, o apóstolo Paulo nos diz na mesma carta: "... a nossa leve e momentânea tribulação ..." (4.17).

A pergunta mais óbvia que devemos fazer neste instante é: como assim? Eu teria dificuldade em dizer "leve e momentânea" se tais sofrimentos acontecessem comigo. Precisamos ser honestos aqui! Não adianta lermos e não meditarmos nos versículos acima e não nos questionarmos em relação a postura do apóstolo. Por um acaso um naufrágio, sem a segurança que temos hoje, sem a comunição e os instrumentos de salvamento que dispomos (coletes, lanternas, botes, rádios e computadores, suprimentos) seria "leve"? Paulo disse que sofreu as agonias desse tipo de tragédia por 3 vezes!

Se oferecêssemos essa epístola para Freud analisar, certamente o diagnóstico sobre a saúde psicológica do apóstolo seria alarmante. Provavelmente Paulo, segundo os freudianos, fosse um psicótico ou uma pessoa muito doente emocionalmente, pois Freud observou em seus pacientes que muitas pessoas frequentemente ficavam assim, como Paulo, para escapar de uma realidade intoleravelmente penosa. Quando uma realidade externa ou interna se torna muito difícil de suportar, o paciente cria um mundo para si, teoriza o psicanalista em Esboço de Psicanálise.

Quanto ao quesito religião-sofrimento, suas idéias trilhavam o ateísmo, mesmo ele sendo um judeu. Freud usava o problema do sofrimento para atacar a premissa de que Deus abençoa os que obedecem à Sua vontade. Olhe ao seu redor, diz Freud, tanto o bom quanto o mau sofrem. Em A Questão da Visão de Mundo ele deixa isso mais claro: ".... as declarações da religião, que prometem proteção e felicidade, se ao menos cumprissem com algumas condições éticas ... [elas têm] se mostrado indignas de confiança. Não me parece possível que haja um Poder no universo que cuide do bem-estar dos indivíduos com cuidado paternal e leve todos os seus negócios a um final feliz ... Terremotos, maremotos, incêndios não fazem distinção entre o virtuoso e piedoso e o patife ou incrédulo".

Mas nós, os cristãos, não entendemos assim. E a pergunta que fica para você é esta: como devemos entender tais palavras de Paulo? Percebemos que o maior psicanalista que o mundo elegeu pensava e influenciou o mundo a pensar que o sofrimento é um problema em todos os sentidos e que a fé cristã não passa de um fuga para ele. E quanto a nós? O que pensamos?

Talvez você não esteja passando por uma aflição, por um momento difícil em sua vida. Mas saiba que esse dia mais cedo ou mais tarde virá e infelizmente muitos cristãos ignoram o sofrimento e se iludem com uma "teopsicologia" que prega uma felicidade sem dor. Buscam uma vida indolor (e para esses há igrejas especializadas nisso, como a Universal do Reino de Deus). Outros, não mergulham no assunto o suficiente para encontrar o verdadeiro sentido do sofrimento, entendendo-o da maneira como Deus quer que entendamos, ainda que isso seja um processo muito difícil e doloroso.

Precisamos encarar o problema do sofrimento e compreendê-lo em todos os seus níveis. Se pretendemos sofrer bem, a boa teologia é essencial. Mas nem mesmo a maior quantidade de boa teologia será capaz de tirar a dor do sofrimento (Dustin Shramek). Acredito que Paulo sofreu bem e por isso disse "leve e momentânea". Você é capaz de dizer o mesmo?

Medite e encare o seu sofrimento.

7 comentários:

Pr. Marcos Serafim disse...

Caro Danilo:
Graça e paz;

Ao ler este post fiquei imaginando esse pessoal dessas teologias baratas que se pregam por ai.
Esse pessoal não lê esses textos porque não trazem o que eles querem , curas , shows da fé, vitorias , e nunca privação e ai do cristão que passar por privação este tal Deus não está nele.
Esses dias atrás assistindo um programa de televisão vi um desses apostolos em em monte com uma porção de garrafões sengundo eles consagrando ao Senhor para depois dar (não sei de dar de verdade ou v...mesmo)ao povo em troca de supostos milagres .
Cada vez que vejo uma cenas dessas choro por dentro em saber que o sofrimento tambem faz parte do cotidiano da vida cristã.

Boa Postagem ,No amor de Deus somos uno... Em Cristo Sola Gratia et Sola Fide Marcos

Anônimo disse...

Danilo Neves, graça irmão,
Que bom foi ler esse texto. Já estava pensando em algo assim antes de lê-lo. Disse a uma irmã que o problema com um parente seu é apenas uma "pluma" diante de Deus. Acho que não errei na minha comparação. Afinal, tudo que passamos de difícil nessa vida não pode ser comparado com a glória do porvir. Todo o sofrimento, todo o choro, o pranto, todos os gemidos e soluços, toda solidão... Cada medo, cada trauma, cada complexo, cada crítica destrutiva, cada decepção... nem juntando tudo isso, podemos conseguir mais do que algo leve e momentâneo. Tudo isso não passa de pluma. Fico imaginando Jó quando disse: "A minha carne está vestida de vermes e de crostas terrosas; a minha pele se encrosta e de novo supurra" (Jó 7:5). Será que ele está achando tudo pesado? Difícil? Interminável? " - O que passava pela cabeça de Jó?" Já que pelo seu corpo passavam vermes sobre as feridas. Suas vestes eram a doença e a podridão, mas, e na cabeça, e no coração desse sofredor? Quando tudo passou, ele disse: "Mas agora os meus olhos te vêem" (Jó 42:5). Jó entendeu que tudo que passou fora leve e momentâneo. O salmista reconheceu: "Antes de ser afligido, andava errado..." (Sl. 119:67). E acrescentou: "Foi-me bom ter eu passado pela aflição..." (Sl. 119:71). Sobre isso concluiu: "Mas agora guardo a tua palavra e passei por isso para que aprendesse os teus decretos" (Sl. 119:67, 71). Ele entendeu que toda a sua aflição enfrentada foi leve e momentânea. O apóstolo Paulo comentou: "Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?" (Rm. 8:32). O mais difícil por mim já foi feito. Eu fui tirado do inferno. Deus vai me levar para o céu. Tudo que aqui eu viver será sempre leve e momentâneo, perto do peso que "sempre", "eternamente" viverei com Deus no céu.
Amém!
Pastor Heli Donizete

Marcello de Oliveira disse...

Shalom!

Amado Danilo, o sofrimento nos coloca de joelhos diante de Deus, para nos colocar de pé diante dos homens.

Foi C.S.Lewis que disse:

"Deus sussura em nossos prazeres, mas grita em nossas dores"

"O sofrimento é o megafone de Deus".

PArabéns por este ótimo texto!

abraços, Pr MArcello Oliveira

P.s divulgue meu singelo blog, e os textos - ok!

Alberto Francener disse...

De fato, o sofrimento é algo inevitável na vida do ser humano. O que faz diferença é a quem recorremos quando passamos por provações!

Gostei muito dessa frase:

Se pretendemos sofrer bem, a boa teologia é essencial. Mas nem mesmo a maior quantidade de boa teologia será capaz de tirar a dor do sofrimento (Dustin Shramek)

É muito fácil para nós dizermos que confiamos em Deus quando as coisas estão tranquilas, sem problemas, mas é quando o sofrimento bate à porta é que descobrimos as nossas fraquezas e o quanto confiamos em Deus.

Nas dificuldades provamos nossa teologia: se ela é algo apenas intelectual ou se ela é prática e capaz de nos fazer passar pelas tribulações.

E o sofrimento, ao nos fazer ver a nossa (falta de) fé é capaz de nos achegar mais a Deus, além de confiar mais Nele.

Mais um post excepcional, Neves. Parabéns!

Danilo Neves disse...

Caro pr. Marcos: A tristeza que o irmão sente é a que falta nessas pessoas que buscam benção físicas e alegria eterna aqui na terra. O triste é que vemos essas igrejas cheias todos os dias!

Caro pr. Heli: quando o irmão disse "tudo que passamos de difícil nessa vida não pode ser comparado com a glória do porvir" então vc toca no ponto central, no meu entendimento sobre o sofrimento. Rm 8.18 joga bases seguras para entendermos que a alegria do cristão é escatológica. Somado a essa idéia, temos que lembrar o que Paulo nos diz em Filipenses: "Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos" (4.4). É um mandamento sermos felizes, somos felizes no Senhor e a alegria é ultracircunstâncial, pois o evangelho de Deus é boa nova de grande alegria. Amém! Que Deus nos dê entendimento para pensarmos sempre que tudo são plumas.

Caro pr. Marcello: C. S. Lewis ao escrever O Problema do Sofrimento jamais imaginou que o megafone usado para o mundo que é surdo, seria usado sobre ele mesmo. Em A Anatomia de uma Dor ele sofreu o sofrimento da perda de sua amada mulher Joy. 20 anos após escrever sobre o Sofrimento, Lewis agora teria que escrever como encarar o sofrimento, como encarar ao próprio Deus, que parece não existir quando mais precisamos dEle. Lewis por fim, entendeu o porque sofria e assim ficou ainda mais perto de Deus! Sugiro esta leitura a todos: A Anatomia de uma Dor - um luto em observação.

Caro irmão Alberto: A frase de Dustin Shramek foi retirada do livro O Sofrimento e a Soberania de Deus. Ela me impactou bastante, pois até então nunca havia lido nada com a expressão "sofrer bem". Como ela foi bem escrita! Ela é uma síntese maravilhosa. Muitos hoje, eu diria, sofrem mal, pois acreditam que sofrimento é maldição de Deus em todos os sentidos, pois estão iludidos com a teologia da riqueza e da saúde sem fim, pois buscam uma vida assim! Arrancam várias e várias páginas das Escrituras e ficam apenas com as promessas de prosperidade. Infelizmente...


Obrigado a todos vocês por comentárem!

Danilo Carlos disse...

DAnilo Neves,

li este post exatamente quando havia terminado de preparar a aula de Tiago para a sala de jovens para a EBD de Domingo. Será uma das últimas aulas sobre o livro de Tiago que em seu capítulo 5 fala de sofrimento.

Após Tiago advertir os Ricos(ímpios) opressores, ele então fala aos crentes que estavam sofrendo estas opressões. Desta forma aquela sua frase (que por acaso vou "roubá-la" para a EBD - com todos os direitos autorais!hehehe): "A alegria do cristão é escatológica" encaixa-se muito bem aqui, quando Tiago diz: "Portanto, irmãos, sejam pacientes até a vinda do Senhor...".

Realmente percebemos a dependência de Deus de forma mais acentuada (daí o termo Megafone do C.S. Lewis) no sofrimento. Lembro-me muito bem na época em que meu pai estava doente na UTI. Houve uma união muito grande da minha família, com muitas orações (Tg. 5:13) e também muita dor. Graças à bondade de Deus meu pai sobreviveu, dando luz ao improvável.

Diante disto essa grande frase de Dustin Shramek faz sentido e como crentes, apesar de sentirmos dores intensas nos sofrimentos, devemos esperar pacientemente nossa "Alegria Escatológica". Lembrando que a Alegria no dia da vinda do Senhor será somente nossa, os crentes, visto que para os incrédulos será uma "Amargura Escatológica" (apenas parafraseando o Neves) e eterna! Tiago já deixa isto bem claro no Cap. 5 verso 5, que o ímpio vive neste mundo somente para "engordar" seus corações para o dia do Abate de Deus. (Qualquer dúvida com relação a este versículo procurem um dos jovens que isto foi dado aula passada...hehehehe, ou então vejam no livro do Nicodemus...hehee)

Danilo Neves disse...

Caro Danilo Carlos:

Agora aprendi também que Tiago joga mais fundamentos para pensar na "alegria escatológica". Foi bom o irmão ter citado.

Perceber a dependência de Deus no sofrimento já é uma benção por si só. A teologia da saúde e da prosperidade financeira quer ser dependente e ao mesmo tempo mandona de Deus quando não há sofrimento. Fica muito fácil seguir qualquer coisa assim e portanto, não faz diferença se o seguidor segue um pedaço de pau ou Jesus Cristo. O que me interessa é não ter sofrimento e passar por problemas. É isso que basta!

Sobre a paciência no sofrimento, isso sim é algo que vale um estudo só sobre o assunto. Poderíamos começar em Tg quando ele fala sobre Jó! Jó foi paciente, ou seja, não se apressou em desistir passando as dores mais horríveis que um homem pode passar nesse mundo. Sem dúvida ele pode ser considerado um tipo de Cristo no A.T...

Abç, Danilo.